Custos · 7 min de leitura
Como calcular o custo de produção por saca
Trabalhando com gestão de fazenda, eu vejo isso de perto: o produtor sabe tocar a lavoura como ninguém, e mesmo assim muita safra é vendida sem que ninguém saiba quanto custou cada saca. Quando a margem era gorda, dava para errar e ainda sobrava, mas hoje ela é apertada, e vender a saca R$ 1 abaixo do que devia, em 15 mil sacas, são R$ 15 mil a menos no bolso.
A conta em si é simples. O que separa um número confiável de um chute é saber o que entra nela, e o primeiro passo é não colocar tudo no mesmo saco.
Custo, despesa e investimento não são a mesma coisa
Todo dinheiro que sai da fazenda é um gasto, mas cada gasto tem uma natureza diferente, e é a natureza que diz onde ele entra na conta.
Custo é o que foi consumido para produzir a safra. Sem ele não existe a saca:
- sementes, fertilizantes, corretivos e defensivos aplicados na lavoura;
- diesel, manutenção das máquinas e mão de obra das operações de campo;
- arrendamento da área plantada;
- assistência agronômica, secagem e o frete da lavoura até o armazém;
- a depreciação das máquinas e benfeitorias usadas na produção, que é o desgaste delas dividido pelas safras que vão durar.
Despesa é o que mantém a fazenda funcionando como negócio e o que acontece depois que a saca está pronta, sem fazer parte da produção em si:
- administrativas: escritório, contador, sistemas, salário de quem cuida da parte administrativa;
- comerciais: o frete de entrega ao comprador, a corretagem e os tributos sobre a venda, como o Funrural;
- financeiras: os juros de custeio e de financiamentos.
Investimento é o que dura várias safras, como um trator, um barracão ou uma correção de solo de longo prazo. Ele não entra inteiro no custo da safra em que foi pago: entra aos poucos, pela depreciação, em cada safra que ajuda a produzir.
Separar essas três coisas não é preciosismo. Quando despesa e investimento entram no custo, a saca parece mais cara do que é, e qualquer comparação com outra safra, com outro talhão ou com o vizinho perde o sentido.
A conta
Também dá para chegar no mesmo número pelo alqueire, o que ajuda a comparar talhões e fazendas de tamanhos diferentes: divida o custo por alqueire pela produtividade, em sacas por alqueire.
Dois cuidados fazem diferença aqui. O insumo entra no custo quando é aplicado, e não quando é comprado, porque a sobra que ficou no barracão vai produzir a próxima safra. E os custos que servem a mais de uma cultura ao mesmo tempo, como o diesel e a mão de obra do mês, são divididos entre elas pela área de cada uma.
Um exemplo
Com a saca a R$ 125,00, cada saca vendida cobre o custo de produção e deixa R$ 65,44. Isso ainda não é lucro: desse valor saem as despesas administrativas, comerciais e financeiras da safra, e só o que sobra depois delas é o resultado de verdade.
A conta também funciona ao contrário. Dividindo o custo por alqueire pelo preço da saca, você descobre que precisa colher 73,5 sacas por alqueire só para pagar a produção. Esse é o ponto de equilíbrio do custo, e para cobrir também as despesas o número sobe.
Dá para saber antes de colher?
Dá, e é aí que o número mais ajuda. Com os custos lançados até agora e a produtividade que você espera, a conta já mostra uma estimativa. No exemplo, esperando 150 sacas por alqueire, a saca sairia por volta de R$ 61,24. É com esse número na mão que você decide se trava o preço, se vende uma parte agora ou se espera.
Os erros mais comuns
- Colocar despesa no custo, como os juros do financiamento ou o contador, e achar que a lavoura está cara quando o peso está fora dela.
- Fazer o contrário e esquecer as despesas na hora de calcular o lucro, que fica parecendo maior do que é.
- Lançar o investimento inteiro numa safra só, ou não lançar nem a depreciação dele.
- Contar a compra inteira de insumo, e não só o que foi aplicado.
- Fazer a conta só no fim, quando a produção já foi vendida e não dá mais para decidir nada com ela.
